domingo, 29 de junho de 2008

Não, a fila não anda!


Não, o mundo não acabará em guerra. Não eclodirá a 3º Guerra Mundial e nem as guerras civis e religiosas acabarão com o planeta. O aquecimento global, o efeito estufa, o derretimento das calotas polares e os desmatamentos, principalmente da Amazônia, não vão acabar conosco. A falta de água também não resultará no fim dos nossos dias como cientistas dizem por aí.
Os especialistas desconsideram muitas vezes não só a patologia social, mas principalmente, se abstém de diagnosticar, considerar e enxergar o funcionamento da patologia do sistema em que vivemos. Um sistema capitalista absolutamente burocrático que dessa forma nos coloca o menos interveniente possível dentro desse sistema, e dessa maneira deixando essas tomadas de decisão para os representantes do Estado e da burguesia.
Esse modelo burocrático que é aplicado por eles será o grande responsável pelo nosso fim. O mundo acabará pelas mãos dos homens através do poder, da mesma forma que começou. Acabará em filas. Filas para pagar, para receber, filas para a Previdência, caixa eletrônico. Filas até mesmo para as necessidades básicas como a de alimentação, as imensas em postos de saúde, para emprego, para educação.
Filas até mesmo para pegar outras filas. Filas para sermos alguém perante um Estado que nos rouba o direito de sermos iguais e acima de tudo racionais, deixando de lado esse modelo.
O mundo acabará em uma colossal fila que tomará nosso tempo útil para cultura, lazer, e outras atividades intelectuais e físicas. Irá fazer com que o sistema caminhe a passos lentos e um dia pare em absoluto, até que todas as filas acabem e todas as pessoas voltem ao seu lugar.

Impresa e sociedade em: "A saga dos cães perdidos"

Ao criticar o telejornal, Ciro Marcondes Filho mostra o que o século 21 foi capaz de nos causar. O desenvolvimento da mídia e o aumento da utilização dos computadores fez com que os jornalistas passassem de cães farejadores a cães perdidos. Faz-se essa metáfora porque antes da utilização da internet, os jornalistas iam para as ruas e investigavam realmente as notícias de todos os lados possíveis. Havia um compromisso com a investigação e com a credibilidade perante o telespectador.
Hoje, pode-se dizer que esses cães perdidos se tornaram submissos aos processos de tecnologia e a prática do jornalismo preguiçoso através da internet e telefone, sem uma saída a campo para realmente investigar através de documentos e reflexões as minúcias da notícia. O estímulo à competição de quem dá a informação em primeira mão acaba tornando suas matérias baseadas apenas em depoimentos de fontes, priorizando a velocidade à qualidade. Muitas vezes não por culpa dos jornalistas, mas pelas organizações para que trabalham que são pressionadas por um sistema que acostumou e transformou essa sociedade da informação.
Os noticiários de TV ao vivo que entopem os telespectadores de informação quando ao mesmo tempo em que exibem uma matéria e suas imagens, passam letreiros com outras notícias de última hora. Marcondes Filho chama esse modelo de telejornal de “esportivo”. Esse amontoado e a velocidade do fluxo de informações são responsáveis pela pouca capacidade de reflexão das pessoas. O excesso e a sobrecarga tomam o tempo que seria adequado para a reflexão de determinado assunto. Apesar da falta de reflexão o subconsciente capta as informações que tem contato e dessa forma é possível manipular a sociedade e tirar sua capacidade de refletir. Através das imagens e com pouca participação do jornalista que narra, o apelo dessas imagens desperta no público a emoção ao invés da razão, o que gera o sentir ao invés do compreender.
Esse apelo à emoção gera a banalização dos fatos. Mortes, escândalos, estupros e outros crimes, apesar do esforço da mídia de cada vez procurar uma nova forma de apelo à emoção, já são vistos como algo comum. Essa falta de comprometimento com a razão faz com que a sociedade não compreenda todos esses crimes inseridos no contexto em que vivem.
A estética da televisão, o poder de alcance e dominação do pensamento social revela o poder que esse veículo tem. Pois é capaz de ditar e pautar sobre o que assuntos a sociedade deverá repercutir. Essa dependência social da informação a todo instante de todos os lugares faz com que as pessoas acreditem que a televisão é realmente necessária para suas vidas.

Um dia para não esquecer

No centro da cidade, no fundo de um ônibus meus olhos se distraiam. Em minha frente, quando um homem me vê, sorri. Não, ele não ri! Ele sorri. Apesar do tumulto ali dentro, e mesmo com dificuldades de estar em pé, ele sorri e eu não sabia porque.
Continuava a olhá-lo e via as marcas no rosto que me sugeriam o sofrimento. Mas ainda sim, continuava sorrindo que me dava orgulho de estar ali.
Sua cor me remetia a um tempo de vergonha, mas ainda sim o encarava. Apesar de seu passado, ele sorria. Apesar de seu presente, ele sorria. Apesar de seus olhos, ele sorria.
Não dizia nada a mim, nem a ninguém durante todo o passeio. Ele só sorria.
Apesar de tudo não era sem motivo. Bem naquele dia, ele sorria. Era 13 de maio, dia da Abolição da Escravatura. Todas as moças eram vistas por ele como princesas. Ainda em silêncio, ele me sorri pela última vez e desce em seu destino que é a “Satisfação”.
Até parece que ele já sabia o que deu na tevê. Uma pesquisa mostrou que até o fim desse ano a população de negros e pardos vai ser maior que a de brancos no Brasil.

O sensacionalismo está de volta em uma nova roupagem





Atualmente a vida até de um estudante de jornalismo se resume a Isabella Nardoni. Tem sido absolutamente covarde o modo como a mídia nos enfia guela abaixo o caso dessa garota de seis anos assassinada. Sinceramente, todos os dias eu torço pra não esbarrar com ela por aí. Não digo pela garota, mas pela repercussão.
Os jornais, a televisão, as revistas, a internet, todos os veículos ditos “independentes” se tornaram submissos ao caso. A pequena menina toma conta de todo esse império midiático. Desde o dia 29 de março temos vivido por conta do assassinato da garota, e em torno disso as pessoas pautam suas vidas e conversas.
Há um mês e meio as pessoas discutem um caso que não teve fim algum, que não teve certeza de nada ainda. A mídia utiliza a velha fórmula do sensacionalismo novamente que me faz lembrar o velho Aqui Agora com Gil Gomes. Pelo menos com ele eu me divertia.
Penso ser impossível não haver notícia alguma mais importante para o país que o assassinato da pobre menina. O sensacionalismo gerado pela mídia fez com que as vidas de donas de casa, mães, trabalhadores e estudantes parassem. No vai e vem do pai e da madrasta na delegacia, no bairro do Carandiru, lá estavam todos eles tentando linchá-los, ofendê-los ou coisa pior. Pessoas íntegras, exemplares, boas ou não da sociedade estavam todos ali. Esses atos fomentados pela mídia de fazer justiça com as próprias mãos são para ser julgados tanto como o dos pais.
Mortes e assassinatos piores que esse acontecem todos os dias no país. Como foi com o caso do menino João Hélio ou outras. A morte de um trabalhador ou de uma criança de classe baixa não é mais importante que a morte de um classe média, de família graduada ou pós-graduada nessa ridícula “grande mídia”.
Tento fugir desse assunto que já me causa desprazer. Já me encheu o saco!
A última gota foi na quarta-feira passada, quando assistia o jogo decisivo do São Paulo pela Copa Libertadores. Assim como eu, outros amantes do futebol, torcedores ou não, exerciam um direito democrático de decidir aquilo que quer ver ou não. Mas não fomos respeitados mais uma vez!
Durante a partida, em meio a lances, o narrador esportivo Kléber Machado transmitia ao vivo simultaneamente a prisão dos supostos acusados pelo assassinato. A transmissão era lá e cá (emocionante!), tela dividida ao meio. Deviam premiar o Kléber. As imagens eram nada mais, nada menos do que duas Blazers da polícia trafegando pela marginal em uma imagem panorâmica.
E o pior é que em uma dessas, a Globo acabou perdendo o gol ao vivo de Adriano. A falta de respeito tomou conta. Chega!
Será que a sociedade deve mesmo pautar o jornalista?

O início

Desta vez criei um blog. A coragem e a idéia que já vinha amadurecendo há algum tempo em minha cabeça se fez. Queria um espaço pra divulgar minha idéias e minha visão refletindo sobre a visão de mundo da sociedade. A partir daí veio o conceito de "Realidade Fabricada" que consegue expressar muito bem não só a minha visão, como a visão de qualquer um.Dentro dessa Realidade além de artigos, crônicas e comentários, vou divulgar versos, músicas, vídeos e tudo que realmente valha a pena repercutir.
Até de repente!